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“Todo dia é um bom dia”

Livro “O som do chá” conduz a uma delicada jornada cultural pela arte japonesa do chá

O chá é uma bebida que une povos e gerações. Quem nunca pediu à sua mãe ou avó para fazer um chazinho de limão com mel ao sentir uma gripe? Ou quem nunca se encontrou com um amigo para colocar a conversa em dia junto de uma xícara fumegante de chá? 

Embora o café seja mais popular em terras brasileiras, o chá ainda é uma grande fonte de memórias afetivas para muitas pessoas. E, fora do Brasil, tem muita importância e tradição em diversas culturas. 

O livro O Som do Chá, escrito pela Giorgia Vittori Pires e publicado pela editora Laboralivros (Selo Urso), mergulha profundamente na história e tradição do chá na cultura japonesa, na qual o chá não é apenas uma bebida, mas sim parte de toda uma cerimônia.

Apesar de ter iniciado sua vida como um trabalho acadêmico, o livro tem uma linguagem acessível e deliciosa de acompanhar, levando-nos habilmente por uma jornada até a China antiga – berço do consumo dessa bebida –, passando pela sua história e, após isso, descrevendo meticulosamente a cerimônia da forma como é praticada tradicionalmente no Japão. 

Esta obra também dedica um capítulo à apresentação de algumas das figuras históricas que são relevantes para a tradição da cerimônia do chá. Destaco aqui a história de Lu Yu (ca. 733–803), escritor chinês célebre por ter escrito o primeiro manual definitivo sobre cultivo, preparo e consumo do chá, o Chaking. Lu Yu foi tão influente para a cultura chinesa que é conhecido até hoje como “deus do chá”.

Os próximos capítulos entram em maiores detalhes sobre o ritual da preparação da bebida, e é interessante notar os aspectos religiosos que essa cerimônia tomou no Japão. Influenciados pelo budismo Zen, os mestres do chá japoneses incorporaram muito da filosofia budista em seu preparo, e essa influência é sentida até hoje. Existe um grande foco em se concentrar no momento, em estar presente mentalmente dedicando-se inteiramente a criar uma excelente experiência para seu convidado.

Giorgia também discorre longamente sobre a gastronomia do chá, afinal a cerimônia não consiste apenas em fazer a bebida e consumi-la, há também uma refeição que é servida junto do chá, e há também todo um ritual envolvido no preparo, servimento, e consumo dessa refeição.

O livro nos traz também a tradução de diversos poemas, retirados da coletânea japonesa Rikyû Hyakushu, que são escritos didáticos feitos com o objetivo de ensinar mais sobre o chadô, o caminho do chá. Cada poema é acompanhado de uma análise em japonês – também traduzida – e de uma análise pessoal da autora. Esse contato com a literatura acerca da tradição do chá é muito interessante, pois traz à tona outro aspecto da sua importância cultural: há muita literatura associada à cerimônia. Podemos observar, através da leitura dos poemas, que não se trata apenas de um entretenimento ou de uma refeição, mas sim de todo um estilo de vida embasado nas filosofias japonesas. Isso abre as portas para um mundo muito diferente do que estamos acostumados, e é um vislumbre fascinante dessa cultura tão rica.

Devido à pesquisa meticulosa da autora, esta publicação nos traz uma gama de informações essenciais tanto para aqueles que não conheciam esse universo quanto para aqueles que já são ávidos pesquisadores de cultura e arte japonesa. A leitura é fácil e prazerosa, e isso ajuda a gerar interesse e dar embasamento para se aprofundar nessa rica tradição. 

Acreditamos que após a leitura do livro, o desejo de participar da cerimônia, e quem sabe fazer seu próprio diário de bordo, irá florescer em cada leitor. Afinal, é muito difícil não apreciar um bom chá.

O livro “O som do chá” de Giorgia Vittori, conta com ilustrações em aquarela de Giuliane Simizu Calizotti, além de um apêndice com os 103 poemas do chá em japonês.

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